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Em 9 de março de 2020 - às 7:54

Gráficos perdem mulher símbolo de coragem e vanguarda da classe

Há uma semana, com quase 95 anos, era sepultada Dona Amara, mulher que por décadas trabalhou na organização sindical, de gênero e artística da classe, mesmo diante da repressão durante anos de repressão militar

Nesta segunda-feira (9), um dia após o Dia Internacional da Mulher, todas as “Feministas contra a violência do estado racista, patriarcal e capitalista” são convidadas para estarem às 13h no parque 13 de Maio, próximo do Sindgraf-PE. Basta de feminicídio e da retirada de direitos trabalhistas que crescem. Infelizmente, neste ano não contaremos mais com Dona Amara, personalidade feminista responsável por auxiliar na formação do Comitê Feminino das Trabalhadoras Gráficas pernambucanas em 1953. Encarou a tarefa de ajudar na organização e proteção da classe até em tempos de chumbo da Ditadura Militar. Atuou como secretária do Sindgraf de 1948 a 1975. A frente do seu tempo, também protagonizou pioneiramente em PE a cena teatral operária na 2ª metade dos anos de 1950, quando atuou no Teatro Santa Isabel e outros palcos, com o Teatro Gráfico dos Amadores, de responsabilidade do Departamento de Cultura do Sindgraf no Estado.

 

“Vivemos hoje tempos sombrios, guardadas as proporções, semelhantes aos enfrentados por Dona Amara contra repressão de governo autoritário que ataca a arte, educação, as mulheres e a organização do trabalhador. Que a coragem de Dona Amara, uma das fundadoras do Comitê Feminino das Gráficas e à frente do Teatro Gráfico de Amadores há sete décadas, possa inspirar mais trabalhadoras gráficas atuais a não se omitirem diante das dificuldades. Precisamos ter coragem para nos unir através da nossa organização sindical e empatia entre nós em nossa defesa”, fala Lidiane Araújo, diretora do Sindgraf-PE e do Comitê das Trabalhadoras da classe.

 

Lidiane foi uma das primeiras mulheres a trabalhar na gráfica do Diário de PE, na década de 1990. Enfrentou grandes desafios por ser mulher neste tradicional ambiente masculino. Mas ressalta o quanto Dona Amara foi fantasticamente corajosa em superar desafios bem superiores ao optar em ser uma trabalhadora no Brasil da década de 1940, de trabalhar em sindicato mesmo na Ditadura Militar, de organizar mulheres gráficas e de ser artista do teatro operário frente a uma sociedade ainda mais atrasada que hoje. Dona Amara não se limitou a cuidar do serviço doméstico e das filhas. Ela não só faz parte da história dos gráficos, como preservou parte dessa história. Guardou documentos da organização da classe, mesmo correndo os riscos de ser torturada e violentada por agentes da Ditadura Militar, época em que os sindicatos sofreram intervenção político-policial.

 

Hoje o Brasil, a partir de Bolsonaro, volta a cultuar o ódio, o arbítrio contra as liberdades, imprensa e as instituições democráticas. Tem-se praticado a cultura dos preconceitos aos negros, pobres, nordestinos, trabalhadores e às mulheres. Apesar de a cada 2 horas uma mulher morre no Brasil, só pelo fato de ser mulher, Bolsonaro fere a ética e desrespeita mulheres. O exemplo estimula homens a agirem igual e pior. Desde quando foi criada a lei do feminicídio na última década, o 1º ano do governo Bolsonaro já superou os assassinatos de mulheres por homens (crime de feminicídio). 1.314 foram mortas.  E a cada uma hora seis mulheres morrem no mundo. “Esse governo também ataca a mulher através da sua política econômica de arrocho sobre os direitos sociais e da classe trabalhadora, onde as mulheres são as primeiras e as mais atingidas”, denuncia Lidiane Araújo.

 

Apesar do cenário difícil, Dona Amara deixa um legado de ensinamentos à classe trabalhadora de que é preciso lutar pela arte, pela história, pelos direitos e pela liberdade da mulher a partir da organização no sindicato. “Graças a luta de Dona Amara, assim como de mais trabalhadores(as), a exemplo de Josefa Cândida, primeira presidente do Comitê Feminino das Gráficas no estado em 1953, nós trabalhadoras ainda pudemos gozar da liberdade. E será graças ao seu exemplo que nós continuaremos lutando e resistimos para que esse governo não nos devolva a um passado sem liberdade e sem direito. Obrigada Dona Amara pelo exemplo de vida como mulher, trabalhadora e fidelidade à organização dos(as) gráficos(as)”, diz Lidiane.

[+ Informe Diário]

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